Constelações Familiares e Organizacionais e Análise Transacional

Quando conheci as Constelações Familiares, fiquei bastante impressionada, a princípio curiosa e intrigada, mas logo depois senti vontade de me aprofundar e conhecer mais a respeito de algo tão diferente. Foi difícil inicialmente pois afinal meu trabalho sempre foi pragmático, objetivo, baseado nas teorias que estudei e que envolviam muita análise. Ao começar a participar de grupos e cursos de Constelações algo diferente começou a acontecer comigo, era como se eu me deixasse levar por algo que eu não conseguia explicar e isso me intrigava muito, mas posteriormente me deixei levar pelo fluxo.

Demorei para conseguir ter ao menos uma pequena compreensão do que era aquele movimento, nada teórico, porém como uma energia que move as pessoas e não sabemos explicar. Aos poucos fui me entregando e me acalmando em relação a querer explicar e entender tudo.
Na formação pela Hellinger Schule ouvi de Angélica Olvera, que constelação familiar “…é um campo de informações que pode ser acessado…”, essa fala é muito coerente com o que ouvi de Cecílio Regojo na formação em Constelações Organizacionais, de que a Constelação é para trazer informações para o cliente, informações que já estão dentro dele, para que ele possa tomar uma decisão ou uma ação e que uma constelação não pode dizer se a empresa do cliente vai ou não ter êxito, ela não prevê nada, mas com as informações ele pode tomar uma decisão ou ter um diagnóstico.

Diante disso este é um trabalho de reflexões e tem como objetivo apresentar as semelhanças entre as Constelações Organizacionais e a teoria da Análise Transacional. Aqui me permito fazer um paralelo entre Eric Berne e Bert Hellinger. Essa é uma teoria que tem norteado a minha vida pessoal e profissional e com a qual me identifico, além disso percebi semelhanças que me instigaram a realizar esse pequeno estudo.
Mas afinal, qual é o objetivo de uma Constelação? Acredito que familiar ou organizacional, o objetivo é contribuir para a harmonia, para a resolução de conflitos e evolução.
Iniciarei apresentando um breve resumo sobre as Posições Existenciais descritas por Eric Berne, na teoria da Análise Transacional, chamada de Visão de Mundo. A Posição de Vida ou Posição Existencial é uma posição que desenvolvemos nos primeiros anos de vida, é a forma como olhamos, percebemos a nós mesmos, os outros e o mundo. Essa percepção de mundo permanece como um padrão na vida adulta e é importante deixar claro que é a nossa percepção, não necessariamente que ela seja real. Nas Constelações a base do nosso sistema é como olhamos o mundo e a nossa relação com a  família. Berne descreve quatro Posições Existenciais:
Posição Eu estou OK/ Você está OK (+/+), na qual os indivíduos respeitam os outros e a si próprios, conseguem perceber suas capacidades e limitações, aprendem com seus erros, alcançam seus objetivos sem prejudicar os outros e têm uma visão realista da vida.
Posição Eu estou OK/ Você não está OK (+/-), nesta posição os indivíduos não assumem responsabilidade pelos seus atos, erros, insucessos, delegam a outros a responsabilidade. Possuem excesso de autoconfiança, olha para os outros como inferiores, o foco é no erro do outro. Não respeitam a si e nem aos outros.
Posição Eu não estou OK / Você está OK (-/+), nesta posição os indivíduos não se respeitam, assumem a responsabilidade de outros, enxerga apenas suas limitações e as capacidades dos outros, sentem-se inadequados e incapazes de contribuir.
Posição Eu não estou OK/ Você não está OK (-/-), ao assumir esta posição as pessoas mostram-se pessimistas, não respeitam a si mesmos e nem os outros, não se sentem capazes e também acreditam que os outros não tem capacidade para mudar, crescer, atingir objetivos.
A partir dessas quatro posições existenciais, Berne afirma que todos nós transitamos por todas elas, mas temos uma preferida, na qual permanecemos por mais tempo. Além disso, os comportamentos descritos em cada uma, vão variar em intensidade. A partir do momento que temos consciência delas, podemos alterar nossos comportamentos. Ao ingressarmos numa empresa, levamos conosco nossos conteúdos, nossa história, portanto também as Posições Existenciais. Levamos nosso sistema de acordo com as constelações.
Hellinger fala do equilíbrio entre o dar e tomar, compreendi que se consigo estabelecer uma relação de equilíbrio com o outro no sentido de dar e receber, é porque o vejo como igualmente capaz, portanto estou na posição de vida Eu estou OK/ Você está OK descrita na teoria de Berne. Eu considero o outro como igual no sentido de capacidade, podemos trocar porque somos igualmente competentes. É assim que entendo, pois só serei capaz de receber porque me acho merecedor e ao dar, me qualifico como capaz, assim estabeleço uma relação positiva. Na medida em que ocorre essa troca, o equilíbrio vai acontecendo. Quando eu estou utilizando meu conhecimento frente ao meu cliente, assumo uma posição Eu estou OK/ Você não está OK por um momento, mas logo que compreendo que é o meu cliente que tem as informações, essa posição passa para Eu não estou OK/Você está OK, portanto essas posições vão se alternando, o que é positivo. Para Berne é importante termos consciência para que possamos permanecer a maior parte do tempo na posição Eu estou OK/ Você está OK, mas também compreender que transitamos por todas elas em alguns momentos de nossa vida. Quando permanecemos na posição OK/OK, temos mais harmonia, evitamos entrar em jogos e assumimos nossa responsabilidade por nossas ações. Ou seja quando há o equilíbrio no dar e tomar, podemos caminhar para a obtenção de mais harmonia.
O ser humano não muda na sua essência, na genética, mas pode mudar na forma de olhar para as coisas. A constelação não muda o passado, mas olhar diferente para o passado contribui para aceitar aquilo que é, como é. E quando olho para o passado e tenho essa compreensão, posso seguir em frente com mais leveza. Isso me lembra que Berne diz, que a leitura que faço de mim mesmo e do mundo, depende da minha posição de vida.

Da mesma forma as organizações e grupos também possuem uma posição existencial que é responsável em grande parte pelos relacionamentos que estabelecem, sejam eles internos ou externos. Considerando a visão sistêmica e as constelações organizacionais, cada um leva para a empresa, o seu sistema e é o conjunto de todos os sistemas que irá formar o sistema da empresa.
Acima comentei sobre as quatro posições existenciais, estas  podem ser observadas também nas empresas, vou descrever aqui a relação dessas posições existenciais das organizações e o ambiente externo, clientes e mercado, o que significa dizer que é a posição existencial externa ou seja as relações estabelecidas. A ênfase aqui, assim como nas constelações, é na forma de relacionar-se, parece ser mais uma semelhança entre os autores.
A empresa com uma posição existencial OK/OK, tem uma imagem positiva, credibilidade, porque cumpre seus contratos, oferece produtos e serviços de qualidade, desenvolve-se continuamente e a satisfação dos sistema de seus clientes é bastante alta. Internamente a empresa olha para seus colaboradores de forma positiva, valorizando suas contribuições. Uma organização voltada para a resolução dos problemas.
Na posição existencial OK/Não OK, estão as empresas que querem tirar vantagem do sistema do cliente em benefício próprio e com isso podem ter um crescimento imenso inicialmente, porém com o tempo tendem a falência por não desenvolverem a fidelidade dos clientes. Neste aspecto, podemos pensar no equilíbrio entre o dar e tomar, existe nesta posição uma postura que leva ao desequilíbrio e talvez por isso leve a falência, ao desaparecimento dessas empresas.
Quando a organização está na posição existencial Não OK/OK, atendem as necessidades dos clientes apenas de forma parcial, o que gera movimentos de sucesso e fracassos. Tem dificuldade no planejamento, as decisões são difíceis e os erros são mais frequentes, o que interfere muito na vida da empresa. Além disso, tendem a não valorizar e aproveitar o potencial de seus funcionários, não há espaço para inovação e o clima da organização é confuso.
E na última posição descrita, a posição Não OK/Não OK, estão empresas que não se atualizam, não acompanham as mudanças de mercado, não prestam atenção e nem se preocupam com as necessidades do sistema do cliente. Acabam por não sobreviver e fecham.
Refletindo sobre essas posições propostas pela Análise Transacional, me parece que elas estão relacionadas ao equilíbrio entre dar e tomar de Bert Hellinger. Partindo do que foi descrito acima, se a empresa quer levar vantagem, não olha para as necessidades do cliente e pensa mais no seu ganho, o dar e tomar ficará em desequilíbrio, acarretando dificuldades de continuidade. Em contrapartida quando a empresa procura manter-se a maior parte do tempo na posição OK/OK, ela mantém o equilíbrio entre dar e tomar e ainda reforça a questão do pertencimento, pois cria uma relação de confiança, de compartilhamento, de lealdade e com isso pode manter e ampliar sua relação com clientes, permanecendo no mercado de forma produtiva. Cada empresa pode apresentar características de todas as posições, mas evidencia características com maior predominância de uma delas.
Estas seriam as relações das empresas com o externo, ou seja a partir de como a empresa se vê, da imagem que tem de si mesma, ela estabelece um relacionamento com o externo.
Porém temos ainda a relação que se estabelece internamente, que de acordo com Rosa Krausz (1999), pode ser identificada analisando os padrões de relacionamento presentes entre os níveis hierárquicos. Assim nas organizações que são OK e membros OK, os relacionamentos são estabelecidos entre as pessoas e não pelas posições, o processo de comunicação flui, as lideranças têm um estilo mais integrador, com decisões participativas e um clima saudável. Para Jan Jacob Stam, uma empresa saudável, na qual os trabalhadores sentem-se bem e existe uma troca dinâmica entre o ambiente interno e externo. As pessoas gostam de trabalhar, reagem bem frente às mudanças, as relações entre elas acontecem de forma positiva, cada um sente que está bem e em seu lugar e é valorizado de diferentes maneiras, mas é valorizado.
As organizações nas outras três posições: empresas OK com membros não OK, empresas Não OK com membros OK, Empresas Não OK, membros Não OK, tendem a apresentar dificuldades nos relacionamentos que podem ir de formais e distantes até superficiais, processo de comunicação distorcido, com estilos de liderança que não estimulam crescimento e autonomia, o processo decisório vai de centralizado a impulsivo, o clima vai de tenso, na maioria das vezes com foco nos erros e não nos acertos a um clima negativista e depressivo. Para Jan Jacob Stam, os efeitos negativos são vistos como problemas, não evoluem, apresentam problemas de comunicação interna e essas seriam reações do sistema. Nestas três posições portanto, o equilíbrio entre o dar e tomar fica em desequilíbrio gerando uma série de dificuldades tanto para o sistema da empresa quanto para os sistemas de seus funcionários. De acordo com Cecílio Regojo, “todos nós pertencemos a muitos sistemas. É normal experimentar tensões que são causadas quando as necessidades de um sistema são incompatíveis com as necessidades de outro” (janeiro/2017, p.19 – 27 Certificação Internacional Systemic Management e Constelações Organizacionais). A partir dessa afirmativa, observo que se a empresa não estiver numa posição existencial OK/OK, é muito provável que haja desequilíbrio entre o dar e tomar e o pertencimento também ficará prejudicado, considerando que os interesses de ambos os sistemas, da empresa e de seus funcionários, não tem convergência. A empresa não demonstra respeito e interesse pelo bem estar de seus funcionários e o inverso pode ocorrer também.
Numa organização saudável, segundo Stam, todas as pessoas são consideradas, cada uma tem seu valor, cada uma tem seu lugar, há um equilíbrio no dar e tomar nas relações. Cada indivíduo dá algo para a empresa e recebe algo de volta, isso vale para também para os relacionamentos com clientes, fornecedores e outros. Além do dar e tomar, há uma ordem, cada posição, cada pessoa tem seu lugar e quando isso está de acordo, a empresa e as relações fluem. Novamente percebo a relação com a posição de vida OK/OK. Quando numa empresa os subordinados sentem-se melhores que seus superiores a empresa não funciona bem, porque a ordem não está sendo respeitada e o sistema não permite. Para o sistema, aquele que vem antes tem prioridade sobre os que vêm depois.
Mas como podemos então contribuir com as constelações? Tanto as Constelações Organizacionais como a Análise Transacional, podem ser utilizadas para realização de diagnóstico na empresa com objetivo de resolução de problemas e mudanças que possam trazer harmonia e melhor clima organizacional. Encontramos portanto mais uma semelhança entre ambas. Com o auxílio da constelação sistêmica é possível verificar essas questões e trazê-las a luz para uma possível resolução. Jan Jacob Stam, afirma que as Constelações Organizacionais podem ser úteis além de instrumento de diagnóstico, também como prognóstico, como instrumento de mudança, para verificar questões de liderança, conflitos latentes, tomada de decisão, carreira, exame do próprio lugar dentro da empresa.
Bert Hellinger afirma que : “Um princípio muito importante é que a organização deve ser estruturada de tal forma que ninguém seja capaz de impedir ou bloquear o outro em seu trabalho” (Stam, 2012, p.98)
Da mesma maneira que Berne cita a Posição de Vida OK/OK, como aquela que traz benefícios porque há uma troca constante e as relações se estabelecem com respeito, Stam traz o pensamento de Hellinger que afirma que sem o equilíbrio entre o dar e tomar não é possível obter lucro numa empresa. Cada um precisa estar no seu lugar e ser valorizado, para poder contribuir, o que implica numa posição de vida OK/OK.
Importante esclarecer que a Constelação Organizacional deve ter uma abordagem diferente da familiar, pois a empresa demanda outra tratativa. Os princípios das Constelações Organizacionais citadas por Cecílio Regojo, incluem:
• A existência do problema
• O que é, tem que ser reconhecido com respeito
• Mostrar a mudança mas também o que deve ser preservado
• A igualdade de pertencer (direito ao vínculo, antiguidade, etc)
• O equilíbrio de dar e receber
• A necessidade de ordem (hierárquica).
Nesses princípios que fazem parte do diagnóstico, detectamos e identificamos o problema, podemos identificar quais são as possibilidades de mudança e o que precisa permanecer. O pertencimento e o equilíbrio entre dar e tomar, vão definir um clima melhor ou pior para a organização. Através da identificação das posições existenciais da organização, ela poderá decidir mudar sua forma de atuação interna e externamente, mas o trabalho e a responsabilidade por essa mudança é da empresa.
A partir de todos esses conceitos e também de minhas observações e vivências nas organizações, entendo que as constelações familiares devem ter uma abordagem diferente dentro das empresas. Uma abordagem talvez mais objetiva, digo talvez, porque não sei se essa é a palavra, mas enfim que não tenha uma conotação de misticismo pelo inexplicável, porque existem fatos observados e algumas energias que não conseguimos explicar, foi isso que pude verificar na formação.
Igualmente tanto consultor quanto constelador, não devem querer ajudar, pois o desejo de ajudar impede a ajuda na visão das constelações e na Análise Transacional, ajudar significa tirar do cliente a sua possibilidade de resolução e gerar dependência. Outra semelhança é que devemos nos centrar no aqui e agora, bem como não podemos trabalhar com quem se vitimiza, pois a vítima faz parte dos jogos psicológicos, e nestes temos o perseguidor, salvador e a vítima, onde a vítima não assume sua responsabilidade e com isso não enxerga possibilidade de mudança, porque é conveniente permanecer como está, mesmo recebendo reconhecimento negativo. De alguma forma sente-se pertencendo.
Uma outra reflexão que faço, é que em todos os contextos sejam eles organizacionais, sociais ou familiares, nossos sentimentos estão presentes, este tema sempre me chamou atenção, principalmente nos trabalhos que desenvolvi com grupos, dentro das empresas. Por esse motivo fiz minha pesquisa de mestrado sobre as emoções nos grupos de trabalho e história oral de vida. Agora ao ler Hellinger, encontrei sua visão a respeito do tema, ele os denomina sentimentos. Ao reler minha pesquisa de mestrado (2006), para escrever este artigo me deparei com o conceito de emoções de Descartes,
“como ocasionadas, passivamente na alma, por uma força vital que age no corpo. Ação esta mediada por uma glândula presente na alma, e que é o centro das emoções. A emoção tem como função excitar a alma e movê-la para a conservação do corpo e para a busca de perfeição”. (1960, p.37).
Nesse conceito Descartes fala da alma e de seu movimento. Refletindo e pesquisando um pouco mais sobre sentimentos e emoções, descobri que Bert Hellinger distingue três tipos de sentimentos e novamente encontro algumas semelhanças com a Análise Transacional. Os sentimentos podem ser primários, secundários e estranhos. Ao estudar as emoções de acordo com Berne, encontramos as emoções autênticas e as emoções de disfarce. Para Hellinger, sentimentos primários são aqueles originais, que não sofreram alterações pelas pressões do ambiente, para Berne as emoções autênticas são aquelas que permanecem inalteradas, permanecem no nosso Estado de Ego Criança Livre e se mantêm puros, autênticos, por isso a denominação de emoções autênticas. Já as emoções secundárias para Berne, são aquelas emoções que sofreram a pressão do ambiente, por não serem aceitas, foram transformadas para que o indivíduo pudesse expressá-las. Portanto elas são mais aceitáveis, seja na família, no trabalho ou no social. Para Hellinger os sentimentos secundários são reações substitutas que são colocadas à frente do sentimento verdadeiro, real porque supostamente são mais aceitáveis culturalmente. Me parece que a compreensão das emoções pelos dois autores são muito semelhantes. Para Berne e Hellinger as emoções tem uma participação muito importante nas relações, os sentimentos primários e emoções autênticas são muito fortes e contagiantes, por serem verdadeiros. Hellinger acrescenta uma categoria a mais que são os sentimentos estranhos e sobre eles não irei me deter aqui.
Outra questão importante para ambos os estudiosos, é a postura do constelador ou terapeuta/consultor, principalmente aquele que forma outras pessoas. Me permito aqui trazer minhas observações. Percebo que quando o constelador é mais aberto e permite a troca e perguntas para esclarecimento de dúvidas, mesmo estas parecendo a ele simples e óbvias, parece que se torna mais fácil “compreender/sentir” não só com o racional mas também com o coração. Na análise transacional, a postura do analista ou formador é fundamental, pois para ser coerente com as premissas, o formador não pode desconsiderar a possibilidade do outro ter dúvidas e deve responder com respeito e sem desqualificação. Aquilo que parece óbvio para alguém, não necessariamente será para o outro. O que percebo é que quando se estabelece um medo ou receio de perguntar o grupo tem um “custo emocional” maior, a relação entre formador e formandos não se estabelece numa posição de vida OK/OK, o que parece dificultar a evolução. É claro que todos somos diferentes, mas a compreensão de que o outro não “tem que” saber, conhecer, entender, a meu ver é respeito pelo outro, dando a ele a possibilidade de esclarecer e seguir em frente. Permitir ao outro expressar-se, é fundamental para as relações e penso que como para a Análise Transacional, o objetivo é a autonomia. Essas minhas observações são devido a constatação de diferentes posturas nos diversos cursos que tenho participado em Constelações Familiares e Empresariais. Nesta formação com Cecílio o que me chamou a atenção a respeito da postura do formador foi exatamente essa abertura e a disponibilidade para compartilhar seu aprendizado e experiência de forma simples e clara. Confesso que anteriormente me perguntava como aplicar as constelações em empresas, pois o que eu tinha vivenciado até então com as constelações, a meu ver não se enquadraria, dentro de uma organização, para contribuir para a resolução de conflitos por exemplo, mas na formação com Cecílio pude compreender que seria sim possível. Ele também destaca que cada um vai encontrar a sua maneira de facilitar. Quando se faz um curso, os conteúdos vão se integrando aquilo que já se sabe, mas cada um irá utilizar a sua bagagem e aqui entendo que a forma como olho para mim, para os outros e para a vida, irá impactar na minha postura diante da vida e dos outros.
Para a Análise Transacional, existem situações onde eu conheço mais determinados assuntos, o que para Berne, seria uma Posição de Vida OK/Não OK em relação ao cliente. O cliente conhece sobre sua realidade bem mais que eu, portanto o cliente sabe mais sobre o seu negócio, seus clientes, seus funcionários e sobre ele mesmo, ele está então em relação a mim, numa posição OK e eu Não OK. Eu como facilitador conheço mais o meu trabalho. Olhando por esse viés podemos dizer que eu em relação ao cliente no que tange ao trabalho que desenvolvo tenho um maior conhecimento e estou numa posição de saber mais que ele, por outro lado no que se refere as questões do cliente é ele que tem as informações e conhecimentos, portanto quando consigo compreender isso, eu e meu cliente somos iguais, estamos na Posição de Vida OK/OK, é claro que isso precisa ser reconhecido por ambos. Eu posso ajudá-lo a pensar na melhor maneira para que ele resolva suas dificuldades, à maneira dele e não do jeito que eu quero ou acho melhor. Assim eu preciso ter humildade para entender que eu não sei nada, ou sei muito pouco do sistema do meu cliente.
Se para Berne, querer ajudar, ou fazer pelo outro é perceber o outro como inferior, incapaz de agir, para Hellinger se quero ajudar, meu cliente se enfraquece e perde o foco, portanto ao compreender que é o cliente que tem a informação, eu o empodero e olho para ele como capaz, em resumo querer ajudar não é visto como positivo para nenhum dos dois autores. Na verdade é o cliente que faz o trabalho por ter acesso às informações, portanto eu como constelador, terapeuta ou consultor na linha de AT e Constelações, apenas acompanho.
Se tenho uma postura OK/OK, com o cliente, mantenho uma relação saudável, de respeito, mesmo que emoções fortes, negativas possam estar presentes. Hoje após ter conhecido diferentes consteladores/formadores, percebi que é possível ter uma postura amorosa, sem se envolver, respeitando e acompanhando o cliente, sem a pretensão de resolver o problema, mas sim trazendo a luz questões importantes para que ele mesmo possa tomar a ação. Na visão das constelações, o ser humano não muda na sua essência, não no que se refere a genética sistêmica, mas pode sim mudar na forma como olha para a vida, para sua história e para si mesmo. A Análise Transacional argumenta que o indivíduo a partir da consciência de suas atitudes pode escolher olhar para si e para a vida entendendo que todos têm o mesmo valor e que as relações que estabeleço com os outros dependem de como me vejo e como vejo os outros e o mundo. Mas ao olhar para o outro posso compreender que todos temos as mesmas capacidades e possibilidades, sem pena, sem vitimização, sem querer ajudar.
E como diz Bert Hellinger: “Quando você toma a ação, ganha um presente”.

 

Referências Bibliográficas
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